Barbara Gancia é uma força da natureza. Dona de uma bravura indômita, ela é o John Wayne de saias do jornalismo tapuia, adjetivo que adora usar. Nascida em São Paulo em 10 de outubro de 1957 numa família de aristocratas piemonteses, ela contraria frontalmente a característica básica dos librianos, que primam por ser circunspectos nas transações financeiras e nos relacionamentos profissionais. Pródiga com o dinheiro, generosa com os amigos e dona de uma franqueza devastadora, Barbara é o oposto dos nativos de Libra: não consegue ser discreta nem em velório de aiatolá iraniano.

Desbocada, hiperbólica, passional, é uma amiga querida há mais de 30 anos. Quando destampa a falar, parece um T-34 soviético na batalha de Kursk – um tanque descontrolado, incapaz de parar, a não ser pela força de um tiro de bazuca bem colocado. O rigor formal da Escola Britânica de São Paulo, o Saint Paul’s, onde estudou por doze anos, do jardim da infância ao colegial, jamais conseguiu enquadrá-la. Barbara se celebrizou na escola durante a única visita da rainha Elizabeth II e do príncipe Philip ao Brasil, em 1968. “O senhor prefere os Beatles ou os Rolling Stones?”, quis saber a pequena repórter, quebrando o protocolo. E antes que Sua Alteza pudesse murmurar que não os conhecia bem, a xereta deu o golpe de misericórdia: “O senhor está feliz como príncipe-consorte ou gostaria de ser rei?”. Para completar, mandou um tchauzinho à sobe-rana: “Have a nice trip, Your Majesty!”. Quando saiu de lá para estudar dois anos no Branson’s College, no Canadá e na Inglaterra, já era pós-doutorada em insurgência de todos os tipos.

Houve uma época em que Barbara queimava três maços de Marlboro por dia, bebia de matar Charles Bukowski de inveja e dirigia mais rápido e mais alucinadamente que Steve McQueen, em “Bullitt”. Um prodígio. Quando trabalhei com ela na revista “Status”, em 1986, me lembro do resultado de uma de suas façanhas alcoólico-automobilísticas: certa madrugada ela conseguiu colocar um Fiat Uno zero quilômetro dentro do show room da Jotapetes, hoje Carpetão, na avenida Santo Amaro, esquina com a Padre Antônio José dos Santos, rua que ela subia a 140 quilômetros por hora. Deu PT, perda total. Barbara escapou por pouco. Tomou juízo e mudou. Também parou de fumar. Mas continua gostando de carro. É uma das pilotos mais habilidosas que conheço.

Nem podia ser diferente. Barbara é filha de Lulla e Piero Gancia, dois ícones das pistas nacionais. Piero abriu a primeira concessionária Ferrari no Brasil e venceu o primeiro campeonato brasileiro de automobilismo, em 1966. Foi um dos articuladores da volta para São Paulo do GP Brasil de Fórmula Um em 1990 – a prova era disputada no Rio. Lulla, descendente da nobreza austríaca, elegantérrima, corria com sua Alfa-Romeo Giulietta e comandou a reforma do autódromo de Interlagos no fim da década de 60. Barbara passou a infância e a adolescência a bordo dos mais diversos modelos de Alfa-Romeo, Maserati, Lamborghini e Ferrari. Hoje, mais bem-comportada, dirige seu VW Tiguan. Está casada com Marcela. Moram em casas separadas, embora distantes apenas um quarteirão. Barbara vive com seus dois dachshunds queridos, Ziggy Stardust, 10 anos, pelo duro, e o pequeno Boris Grushenko, de 10 meses, pelo longo. Ela nos recebeu em seu apartamento. Duran comentou casualmente que, um século antes, tivera início a Ofensiva do Somme na França, desastrado e sangrento ataque anglo-francês contra os alemães durante a Primeira Guerra Mundial. Foi o quanto bastou para que o velho T-34 à nossa frente engrenasse uma primeira e saísse fumegando estepe afora.

Barbara começou citando as 57.470 baixas e os 19.420 mortos apenas no primeiro dia. “Isso fez do 1º de julho o dia mais sangrento até hoje do exército britânico”. Observou que a batalha não serviu para nada, apesar do total de 1,2 milhão de baixas. “Foi também a estreia do tanque na guerra”. Um prodígio. Durante os 60 minutos seguintes, La Gancia não parou de falar, atropelando tudo e todos: jornalismo, televisão, os Gancia, as soi disant elites tapuias, Lula, Brasil, o capeta. Bem que tentei algumas intervenções. Em vão. É que eu havia esquecido minha bazuca em casa. Perdão, leitores (Fernando Paiva).

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