• de quando
    as fronteiras
    existem apenas
    na imaginação dos
    homens

 

Tenho o prazer de apresentar duas amigas, inseparáveis e indispensáveis, que me acompanham seja qual for a minha viagem. Elas estão na foto da página ao lado. Uma é a Rolleiflex 6×6, a outra,
uma Leica M8. Estão descansando sobre uma edição do “International New York Times”, leitura indispensável no café da manhã, durante qualquer viagem internacional. As câmeras foram fotografadas em um dos apartamentos do Çiragan Palace Kempinski, em Istambul. A Rolleiflex 6×6 é uma câmera analógica que usa filme 120. Filme que é necessário revelar no escuro e que gera negativos
que se multiplicam em ampliações fotográficas. As imagens dos portfólios fotográficos das matérias “Roma”, “Anônimo Veneziano” e dos índios “Zo’é” foram feitas com esta mesma Rollei. Delicados
exercícios de fotografia, de enquadramento (o negativo que a Rollei produz é no formato quadrado, isto com décadas de antecedência ao Instagram), que sempre resultam em um retorno generoso de
boas surpresas visuais.
A Leica é digital. As fotos do portfólio “Santa Monica Pier”, por exemplo, foram feitas com a ajuda dela e, confesso, em nenhum momento coloquei o olho no visor. Disparei from the hip, como se fazia nos duelos dos filmes de vaqueiros. E, diga-se de passagem, como é esperado pelos maestros da street photography. Robert Frank que o diga. As duas câmeras têm uma coisa em comum; resistem,
impavidamente, a qualquer pancada ou mau-trato que os imprevistos de uma longa viagem possam acarretar para o equipamento.
A Rolleiflex tem uma história curiosa. Foi comprada em Saigon, em 17 de dezembro de 1961, pelo docteur Brochen, médico do exército francês e bisavô de Alexandra Brochen, minha esposa. Anos depois, o docteur Brochen a deu de presente para o monsieur Jean-Jacques, o pai dela. Com o passar do tempo, ele decidiu dar a câmera para Alexandra, que a deixou guardada no fundo de um baú.
Um dia, anos mais tarde, foi a minha vez de ganhar a Rolleiflex de presente. Deu para entender o périplo da câmera? E mais ainda. Posso dizer para você que tenho certeza da data da compra inicial;
quando ganhei a câmera ela ainda estava no estojo de couro original e, em uma bolsinha, tinha o recibo – cuidadosamente dobrado – da compra (1). O que posso dizer da Leica é que uma vez caiu da altura de uma mesa direto ao chão (eu mesmo esbarrei nela). O barulho do impacto foi aterrador.
Mas o resultado foi apenas uma pequena marca no corpo da câmera e um belo furo na lajota em que ela aterrissou. Até hoje continua funcionando perfeitamente.
*
Depois de 10 edições da Rev.Nacional olhando única e exclusivamente para o Brasil, decidimos expandir os horizontes e procurar outros temas. Sempre de acordo com o perfil inquieto que nos leva a descobrir os detalhes que se esconden por trás dos mais óbvios momentos. A Rev.Nacional passou a ser internacional. Um jogo de palavras que, com imagens e textos ultrapassa as convenções
delineadas pelos homens sobre os mapas e junta todas as culturas sob um só olhar. O do respeito e verdadeiro interesse pelo nosso semelhante, os únicos sentimentos que podem salvar nosso planeta. Qualquer viagem só vale a pena se for encarada como uma aventura para ampliar o conhecimento.
Seja ela, por motivos óbvios, para Rwanda, por exemplo, ou em volta do próprio quarto, como a que fez Xavier de Maistre (2). O que importa é que ao voltar para o ponto de partida, além das novas imagens e sensações armazenadas na memória, tenha se aumentado o coeficiente de compreensão e entendimento do mundo em que vivemos.

Aproveito para agradecer a todos os que acompanharam esta longa caminhada, especialmente a Fernando Ullmann e Eduardo Monezi da Ipsis Gráfica e Editora, assim como à diversidade de colaboradores (reais ou fictícios), pela gentileza e carinho que têm dedicado a estes portfólios fotográficos, verdadeiras monografias de meu trabalho.
J.R.Duran