Rev.Nacional.- Como vai o Carnaval?

Paula Lima.- Aqui está um calor de lascar. Meu Carnaval começou já na semana passada, eu participei de dois blocos superlegais, aqui em São Paulo. Um que foi o “Chá da Alice”, com 700 mil pessoas na Faria Lima, foi incrível, e outro que foi o bloco do “Acadêmicos do Baixo Augusta”, com 350 mil pessoas e que também foi maravilhoso. E amanhã e domingo canto com o trio “Jegue Elétrico” e Chico Cesar. Vai ser espetacular.

R.N.- Me fala um pouco de “Fiu Fiu”.

PL.- “Fiu Fiu” foi a música que lancei no começo do ano passado, entrou como uma das trilhas da “Malhação” na Globo. Acompanha a personagem da Deborah Secco, o que deu para ela uma projeção nacional superbacana. É uma música que fala da força da mulher e do poder de dizer não. E o recado é dado com swing.

R.N.- Sou da época em que fazer “fiu fiu” para as pessoas, na rua, não provocava tanta controvérsia. Acho interessante que você tenha colocado este título, nos dias de hoje, numa música.

PL.- Toda paquera, toda aproximação deve ter uma forma certa, bacana, de acontecer. Quando a pessoa está aberta para uma outra e rola isso, tudo bem. O que não pode é ser agressivo. O que não pode é a forma masculina de pensar de que se a mulher está vestida de um jeito, ou em determinada balada, ela quer algo. O “fiu fiu” não é o problema, o problema é a intenção, a forma masculina possessiva de ver a mulher como o sexo frágil e em desvantagem. Porque o homem quando está sozinho age de uma certa forma e quando está em grupo às vezes age de uma outra maneira, mais agressiva. Mas o meu “Fiu Fiu” fala da aproximação da forma certa, com carinho, como deveria ser.

R.N.- E “Mil Estrelas”?

PL.- “Mil Estrelas” fala do amor dos apaixonados, aquele amor que não te deixa respirar se você não está com a pessoa amada, que você precisa estar o tempo todo com ela. É uma produção do Alexandre Kassin, que pegou um lance soul, meio “Stylistics”, e que gosto muito de cantar, e as pessoas se apaixonaram por ela também, está na boca das pessoas, tocando no Brasil todo.

R.N.- Você tem uma trajetória na música brasileira bem interessante. Que tipo de música te influenciou no teu começo? O que você ouvia?

PL.- As minhas primeiras lembranças musicais são de quando eu tinha 5, 6 anos. Em casa, meu pai ouvia muito jazz, Ray Charles, música cubana. Minha mãe adorava Roberto Carlos. Eu gostava de ouvir Sarah Vauhgan e Wilson Simonal. A gente também ouvia Martinho da Vila, Jorge Ben, Alcione. Isto era o básico. Música negra, de maneira geral, que variava entre o samba e o jazz. Depois, mais tarde, fui descobrindo James Brown, Michael Jackson, Nina Simone, Ella Fitzgerald. Com 13 anos estava ligada em tudo isso. Depois me apaixonei pela bossa nova. Então minha música é um caldeirão que tem como base o Brasil, mas com uma conexão global, o que dá a esta música MPB com balanço, com swing, que é o que eu gosto de fazer. MPB com soul.

R.N.- No seu primeiro CD você trabalhou com vários músicos de extraordinária qualidade, mas tem uma dele que me fascina desde que cheguei ao Brasil, nos anos 70. Me refiro ao Gerson “King” Combo. Me fala um pouco dele.

PL.- Convivi um pouquinho com o Gerson, na época. Ele é uma pessoa extremamente generosa, querida, com uma visão e uma sabedoria do mundo diferente, por ter passado por muitas coisas. Acho que não teve o sucesso justo, era uma outra época. Ele é um James Brown brasileiro, é totalmente soul, funk. Uma pessoa que, nas letras dele, mostra uma grande consciência do que está acontecendo ao seu redor. Foi muito bacana ter convivido com ele, porque além de tudo isto ele é uma pessoa leve e divertida. É um personagem, usa a capa do James Brown, chapéu, faz os passos incríveis, mesmo hoje em dia. Um cara de luz, com um domínio admirável do palco.

R.N.- E como foi tua participação em “Cats”?

PL.- Foi maravilhoso. Foi um desafio. Fiz o papel da Grizabella, e da Memory. Nunca tinha feito musical e tive de aprender algumas técnicas, ter uma disciplina diferente. Vieram uns diretores da Broadway e, nos três meses de ensaio e mais um ano em cartaz, aprendi demais. Foi um ano puxado, porque juntou as apresentações da peça de quinta a domingo, minha participação como jurada no programa “Ídolos”, fora os shows que fazia paralelamente. Mas eu voltaria e faria tudo novamente, foi uma emoção diferente. Como cantora cresci, especialmente por ter adicionado a técnica do beltting, que se usa em musical e consiste em utilizar mais a voz de cabeça, projetar a voz, do que a voz do peito. Um recurso maravilhoso. Além de ter trabalhado com atores maravilhosos que me ensinaram muito como melhorar minha expressão corporal.

R.N.- Você disse que faria tudo de novo. Tem alguma coisa na sua vida que você não faria de novo?

PL.- Tem, tem. Tem várias coisas na vida que não faria de novo. Não namoraria tanto tempo com a pessoa errada. Não comeria determinadas coisas que sei que podem me fazer mal. O que não faria mesmo é ir contra meu feeling, especialmente em termos profissionais. Não adianta fazer qualquer coisa que você desacredite o mínimo, não adianta. Aquilo não vai ser legal. Hoje só faço o que acredito que é de verdade 100%, independente de marcado, de qualquer coisa. Obviamente não estou em um casulo, tem de entender o todo, mas você tem de acreditar nas coisas, na essência mesmo delas.

Paula Lima se projetou para o Brasil e o mundo em 2000 com “É Isso Aí” seu primeiro, e lendário, CD solo. Contou com a participação de Seu Jorge, Gerson “King” Combo, Banda Black Rio, Max de Castro, Ivo Meirelles, Funk’n’Lata e Xis. Resultou na indicação de Revelação do Ano do Prêmio Multishow. Mais seis CDs solo se sucederam depois disso. Foto realizada no estúdio WBorn, em São Paulo, em 10 de novembro de 2016. Entrevista telefônica grampeada em 24 de janeiro de 2017.

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